terça-feira, setembro 30

fernando pessoa



«Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!»


:))

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segunda-feira, setembro 29

Método global

Tenho um neto que, chegada a hora de ir para a escola, os pais optaram por matriculá-lo num colégio particular. A mãe, minha nora, uma vez que de momento se encontrava desempregada, dispunha de tempo para proporcionar à professora fichas de estudo e outros elementos de estudo e assim o filho gozava de um “estatuto especial”. Tudo corria pois num mar de rosas até que, chegado o fim do ano, o meu filho que, devido à sua profissão não tem tempo disponível para acompanhar o meu neto, verificou que este não sabia ler. Decorava os textos.
Foram falar com a professora e criou-se um desaguisado que iria ter reflexos no miúdo no ano lectivo seguinte, isto é no ano passado.

A professora, jovem diplomada pela Escola Superior de Educação, sem experiência de ensino, mas com um elevado conceito de auto-estima, entendia que todos os alunos deviam aprender pelo chamado “método global” e não admitia qualquer reparo.
Ora é sabido e quem anda no ensino sabe-o bem, que há alunos que não se adaptam ao referido método. Assim, o meu neto, juntamente com outros colegas inadaptados, passou a ter aulas de apoio, mas foi a minha mulher que, em casa, conseguiu pôr o neto a ler e a escrever.

Claro que este ano o meu filho, que aliás sempre quisera a criança no Ensino Oficial, onde ele e os irmãos andaram, meteu lá o miúdo.
Tudo bem, a escola era nova, perto de casa e o professor parecia bom (e de facto é-o), mas a minha nora que levou o miúdo à escola no primeiro dia, veio de lá desvairada e queria tirar o filho pois a aula tinha negros, indianos e ciganos.
Reunido o “conselho de família”, aceitaram o parecer do “velhote”:
- deveria ser a criança a optar por continuar na escola ou não, consoante se sentisse ou não bem com os colegas.

E assim foi. No primeiro Sábado o filho levantou-se e disse para a mãe que queria ir para a escola brincar com os colegas…

domingo, setembro 28


A metáfora da memória como aviário
img in externalismo.blogspot.com
«Vê então, se também é possível possuir assim o saber, sem o ter.
É como se alguém tivesse caçado umas aves silvestres, pombas
ou quaisquer outras, construísse em casa um pombal e
tomasse conta delas; diríamos que de certo modo
sempre as tem, porque sem dúvida as possui,
não?» (Platão, Teeteto, 197c)

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sábado, setembro 27




A inteligência do animal nasce do hábito
a que a sequência repetida dos eventos
do mundo o acostuma.

O mesmo é dizer que tudo são probabilidades
de grau maior ou menor, entre a certeza
da ocorrência, ou não, de um qualquer evento.

Ouvi dizer que os golfinhos têm um Q.I.
superior ao nosso. Eles, imersos no oceano;
nós, nesse outro verdadeiro oceano de ar,
que é atmosfera.

Numa expedição científica para observação
de um eclipse solar em pleno oceano,
os cientistas depararam-se com uma
anormal presença de golfinhos
na mesma zona do mar!

Tudo leva a supor, também eles
sabem formular a previsão de eclipses.


Será, então, que a inteligência do homo sapiens
não supera a dos golfinhos?

Colectivamente, eu creio que sim.

Por esta razão: enquanto aqueles mamíferos aquáticos
alcançaram, no oceano, uma adpatação perfeita ao seu meio,
nós, humanos, para lá de termos conseguido o mesmo,
no nosso próprio oceano, a atmosfera terrestre,
e para lá de conseguirmos modo de penetrar
em meios adversos como o do mar profundo
e o cosmos interplanetário,

nós, colectivamente, em sociedade,
na transmissão do saber pela instrução
de cada nova geração, alicerçamos
uma explicação do mundo

que independe do que dele desejamos
ou não desejamos, isto é, dispomos
de uma percepção inteligente
não-antropomórfica
do universo.

Não podem os golfinhos dizer o mesmo!

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sexta-feira, setembro 26

Pensamento do Dia

Se 23% dos acidentes de trânsito são provocados pelo consumo de álcool, isto significa que 77% dos acidentes são causados por pessoas que bebem água!

- Perigosos, estes gajos...

quinta-feira, setembro 25

O furacão IKE

Imagem do furacão IKE em 10 deste mês, tirada pela tripulação da Estação Espacial Internacional, em órbita a 220 milhas da Terra.



O IKE arrasou a costa densamente povoada perto de Houston, na manhã do dia 13, com uma autêntica muralha de água do mar, ferozes ventos e chuva intensa, que alagou vastas áreas costeiras ao longo do Golfo do México e paralisou a 4ª maior cidade dos USA.


quarta-feira, setembro 24

Bom dia!


Hoje ao dirigir-me ao Café para comer o rissol de camarão (dos melhores de Lisboa) e o café matinal, passei por um velhote que estava sentado num dos bancos do jardim que normalmente atravesso.
Devia ser pessoa de oitenta e muitos anos. Nitidamente alentejano, camisa negra às riscas e boné escuro, gozava a manhã soalheira deste ameno início de Outono.
Quando passei por ele, distraído como sempre, deu-me os bons dias:

- Bom dia.

Admirado, eu que nem sequer conheço os inquilinos do prédio onde moro, respondi à saudação, parei e fui sentar-me ao lado dele. Começámos a falar e esqueci o café.

Claro que era alentejano, viúvo, sem nenhum familiar na terra, viera para Lisboa viver com uma filha divorciada e sem filhos, que morava no bairro. Passava o dia e às vezes as noites ... sozinho, sem ter ninguém com quem falar. Por isso vinha sentar-se ali a ver pessoas e sempre na esperança que alguém parasse para trocar dois dedos de conversa. Sempre era melhor do que estar emparedado vivo num depósito de velhos, a que com eufemismo chamam "lar".

Tivemos sorte:
- ele porque encontrou um patrício com quem poderia falar do seu Alentejo, que nunca mais deverá ver;
- eu porque me senti humano e me libertei da massa anónima da grande cidade, que se atropela e se empurra sem a mínima consideração para com ninguém. O lisboeta tornou-se egoísta e indiferente, não quer chatices e está-se nas tintas para com os outros. O seu umbigo é o centro do mundo.

terça-feira, setembro 23

A origem de @ (arroba)


Na idade média os livros eram escritos pelos copistas à mão.Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem económica: tinta e papel eram valiosíssimos.
Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um "m" ou um "n") que nasalizava a vogal anterior. Um til é um “enezinho” sobre a letra. O nome espanhol Francisco, que também se escrevia "Phrancisco", ficou com a abreviatura "Phco." e "Pco". Daí foi fácil o nome Francisco ganhar em espanhol o apelido Paco.

Os santos, ao serem citados pelos copistas, eram identificados por um feito significativo em suas vidas. Assim, o nome de São José aparecia seguido de "Jesus Christi Pater Putativus", ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adoptar a abreviatura "JHS PP" e depois "PP". A pronúncia dessas letras em sequência explica porque José em espanhol tem o apelido de Pepe.
Já para substituir a palavra latina “et” (e), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras: &. Esse sinal é popularmente conhecido como "e comercial" e em inglês, tem o nome de “ampersand”, que vem do “and” (e em inglês) + “per se” (do latim “por si”) + “and”.

Com o mesmo recurso ao entrelaçamento das suas letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina “ad”, que tinha, entre outros, o sentido de "casa de". Veio a imprensa, foram-se os copistas, mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço - por exemplo: o registro contável "10@£3" significava "10 unidades ao preço de 3 libras cada uma".
Nessa época o símbolo @ já ficou conhecido como, em inglês, "at" (a ou em).No século XIX, nos portos da Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contáveis dos ingleses.Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíamao símbolo @ (“a” ou “em”), acharam que, por engano, o símbolo seria uma unidade de peso.

Para esse entendimento contribuíram duas coincidências:
- a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba cujo "a" inicial lembra a forma do símbolo;
- os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba.

Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de “10@£3"assim: "dez arrobas custando 3 libras cada uma". Então o símbolo @ passou a ser usado pelos espanhóis para significar “arroba”.
Arroba veio do árabe “ar-ruba”, que significa "a quarta parte":arroba (15 kg em números redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe (quintar), o “quintal” (58,75 kg).

As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar os seus originais dactilografados). O teclado tinha osímbolo "@", que sobreviveu nos teclados dos computadores. Em 1972, ao desenvolver o primeiro programa de correio electrónico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido "@" (“at” -em Inglês), disponível noteclado, e utilizou-o entre o nome do usuário e o nome do provedor.
Assim Fulano@ProvedorX ficou significando: "Fulano no provedor (ou na casa) X".
Em diversos idiomas, o símbolo "@" ficou com o nome de alguma coisaparecida com a sua forma.
Em italiano “chiocciola” (caracol), em sueco “snabel” (tromba de elefante), em holandês, “apestaart” (rabo de macaco).
Noutros idiomas tem o nome de um doce em forma circular:”shtrudel”, em Israel; “strudel”, na Áustria; “pretzel”, em vários paíseseuropeus.”
(Recebido por e-mail. Estou sempre a aprender.)

domingo, setembro 21

Um pequeno e primoroso conto de Miguel Troga
que se lê, deliciado, com um sorriso nos lábios:




«Aqui, a minha imaginação detém-se um pouco.
O meu D. Quixote perdeu o Sancho e é português.
De natural impetuoso, não tem a loucura mística
do da Triste Figura, nem é casto.

Por isso eu hesito [ ]
Bem sei que não há façanha nossa
sem a marca fatídica do sexo,

e que, se a condição é essa,
é bonito que seja assim.»

:)
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sábado, setembro 20

Insegurança

A insegurança é um facto e parece-me ser um problema sem solução e termos de nos habituar a viver com ela, confiando no factor sorte. As primeiras páginas do jornal “Correio da Manhã” são o relato de todas as ocorrências havidas no dia anterior e talvez esse facto seja um factor fundamental na venda dos jornais, colocando-o em primeiro lugar entre os diários.
De igual modo a TVI , com o consequente primeiro lugar no share.

Evidentemente que há aqui um problema de difícil solução, pois não se pode negar aos medias o direito de informar, como não se pode negar aos cidadãos o direito de estar informados. Mais, esse direito para o cidadão funciona como alerta e levá-los-á a terem uma postura mais atenta.

Por outro lado, os malfeitores vêm a beneficiar de um destaque que a sua situação como cidadãos não lhe proporcionaria. Será portanto uma publicidade gratuita ao crime. E como a legislação actual é extremamente benévola e permissiva, irão normalmente para casa, com termo de identidade e residência até ao julgamento, usufruindo do produto dos roubos. Presentes a julgamento, já sabem que poderão cumprir apenas 1/3 da pena. E por favor não culpem os juízes que têm de aplicar a Lei, culpem sim é o legislador que a fez.

Posto isto, em que ficamos?

No bom senso. É preciso bom senso, algo que não se coaduna com a governação do país.

sexta-feira, setembro 19

O companheiro de uma estrela parecida com o Sol


Muito possivelmente alguns dos que visitam este blog já estarão fartos de eu publicar aqui imagens e textos traduzidos do site “Astronomy Pictures of the Day”. É um facto que aceito. Porém sucede que sou um apaixonado por estes temas e que surgiram dois assuntos que achei ser de dar conhecimento pelo seu interesse, no pressuposto de que alguns não teriam lido o site e que também se interessem por estas notícias do Universo. Foi o caso do último texto publicado em que se faz um pouco de luz sobre a “matéria negra” e agora é este em que se dá a conhecer a primeira imagem directa de um planeta orbitando uma estrela semelhante ao Sol:

Localizado apenas a 500 anos-luz e na direcção da constelação do Escorpião, esta estrela é ligeiramente menos massiva e um pouco menos quente do que o Sol, mas é muito mais nova, poucos milhões de anos comparados com a idade média do Sol de 5 biliões de anos.
A imagem em infra-vermelhos mostra-nos a estrela e um planeta também “jovem” e quente, com uma massa 8 vezes igual à de Júpiter, que descreve uma órbita em torno dela a uma distância de 330 vezes a da Terra ao Sol. O jovem planeta está ainda quente e é relativamente brilhante à luz infra-vermelha devido ao calor gerado pela contracção gravitacional durante a sua formação. De facto, tais planetas são mais fáceis de detectar antes da idade e do arrefecimento os tornarem menos brilhantes.
Embora mais de 300 planetas tenham sido detectados usando outras técnicas, esta foto provavelmente representa a primeira imagem directa de um planeta orbitando uma estrela semelhante ao Sol.

Credit Gemini Observatory, D. Lafreniere, R. Jayawardhana, M. van Kerkwijk (Univ. Toronto)

quinta-feira, setembro 18

Colisão de dois enxames de galáxias


Novas pistas quanto à ”black matter” (matéria escura)?

O que acontece quando dois dos objectos maiores do universo colidem? Ninguém está completamente seguro, mas a colisão está a fornecer indícios quanto à natureza da misteriosa “matéria escura”. No caso de MACSJ0025.4-1222, dois enormes conjuntos de galáxias foram descobertos a colidir lentamente durante centenas de milhões de anos, e o resultado foi viso pelo telescópio espacial Hubble na luz visível e pelo telescópio espacial Chandra de raios X.
Na imagem acima, a posição e as distorções da lente gravitacional das galáxias mais distantes permitiram aos astrónomos determinar computacionalmente o que aconteceu à matéria escura do novo enxame (“cluster”) de galáxias. O resultado indica que esta colisão enorme fez com que parte da matéria escura dos conjuntos se separasse em matéria normal.

A matéria escura na imagem está representada com a cor matiz roxa difusa e a matéria normal quente, vista pelo raio X, em cor-de-rosa (as cores são fictícias).
MACSJ0025 contem centenas de galáxias, num enxame de aproximadamente três milhões de anos luz, que se expande por seis biliões de anos luz em direcção da constelação “Monster Whale”.

(Credit: NASA, ESA, CXC, M. Bradac (UCSB) & S. Allen (Stanford) )

P.S. – Aconselhamos a ver o vídeo na “hiperligação” NASA.

quarta-feira, setembro 17

Gerações

Olho o mundo à minha volta e sinto-me como um estranho. Sinto-me desajustado e isolado, porque este não é o meu mundo, nem pode ser, pois o mundo evoluiu.
Para melhor, ou para pior? É relativo e nem sequer posso responder à pergunta porquanto o termo de comparação seria eu, ou, quando muito, a minha geração.
E onde está esta?
Sei lá! Até porque nem sequer me dou ao trabalho da procurar e daí o meu desajustamento.
Recuso integrar-me na geração a que pertenço, embora no meu inconsciente permaneçam valores e conceitos dela nos quais fui educado e que não posso apagar, nem posso esquecer, pois os mesmos continuarão lá e, mais cedo ou mais tarde virão contundir comigo.
Se fosse um indivíduo isolado, até poderia deitar tudo para trás das costas, mas integrando-me num contexto familiar, social e profissional, sou obrigado a seguir as “regras do jogo”.

Então que fazer?

Se calhar a solução é “fazer batota”:
- Dentro do contexto em que me integro, sigo as regras do jogo. Mas esse indivíduo não sou eu. Não é o meu “eu” verdadeiro que está ali. A melhor solução será falar o menos possível, medir bem as palavras, procurar parecer igual.
- Se tentasse avançar duas gerações, tal seria impossível pois era de imediato liminarmente rejeitado, ou, quando muito, considerado como uma “curiosidade”. Acresce que a impossibilidade também seria minha, por incapacidade de adaptação.
- É pois com a geração seguinte que eu mais me identifico, compreendendo-a tal como ela é. É aqui que eu me sinto mais realizado, é aqui que eu acho que sou “eu” mesmo. Olho-a de longe, por vezes sou aceite, mas não pertenço lá.

Há vários anos, seis, sete (?) li um texto já não me lembro onde, de que não resisto a transcrever um pequeno excerto:

“Para mim a coisa mais rica que eu posso encontrar neste mundo é outro mundo interior Além disso a minha visão da vida e da idade das pessoas é muito minha. Acho que a vida é tão rápida, as pessoas que amamos são tão raras, é tão raro que nos olhem sem nos invadirem, é tão raro o respeito pelo mundo dos outros, e há tantos interiores tão desertos e estéreis, que eu habituei-me a olhar além dos corpos das pessoas. O corpo, esse traidor, como dizia Vergílio Ferreira... e é mesmo: traidor, vulnerável, precário, pequeno. Eu tento mesmo viver assim, de acordo com isto. Por natureza, acho que nem tento, fui sempre assim. Por isso não costumo catalogar as pessoas pela idade. Pessoas são mundos.”

segunda-feira, setembro 15

Mas o que se passa na blogosfera?

Sim, o que se passa? Um “vento mau” tem varrido os blogs, principalmente a partir de Julho, muitos estão parados, não publicam, continuam de férias. Percorro os links, é raro ler algo de novo e é desolador, porque sem artigos e sem comentários não existem contactos. Para mim, pelo menos, é-me difícil escrever, nem sempre a inspiração aparece e é-medifícil escolher tema.

A inauguração em 10 deste mês do novo LCH, grande acelerador de colisões, no CERN, levou-me a publicar um artigo sobre o evento e que intitulei: “Em busca do bosão de Higgs”. É um assunto que sempre me tem apaixonado: a constituição da matéria e o aparecimento do Universo. Nos últimos anos tenho dedicado o meu tempo à leitura de autores credíveis que, em obras de divulgação científica, portanto mais fáceis de ler e de assimilar, abordam esses temas. Por isso, foi com prazer que baseado nas minhas leituras e em pesquisas no GOOGLE, escrevi o artigo em causa, limando os aspectos que me pareceram mais áridos e procurando despertar o interesse dos leitores. Foi com satisfação que verifiquei estar o blog a registar um aumento de visitantes. Não sei se seria devido ao artigo em causa, mas não encontro outra explicação. Só lamento não surgirem comentários, o que possibilitaria contactos e oportunidade de acrescentar, ou esclarecer algo, dentro das minhas naturais limitações sobre o assunto.

quinta-feira, setembro 11

Em busca do bosão de Higgs


A descoberta das “partículas de mediação”, nomeadamente dos “bosões” intermediários W+, W‾ e Zº em 1983 foi, sem dúvida, um acontecimento impar na história da Física, já que os mesmos tinham sido previstos pela Teoria Electrofraca elaborada pelos físicos Weinberg, Glashow e Salam, entre outros, para unificar numa única explicação duas das quatro forças fundamentais da matéria nos seus limites (força nuclear forte, electro-magnetica, nuclear fraca e gravitacional).
Os bosões W e Z são pois os mediadores da Força Nuclear Fraca responsável pela radioactividade, tal como o Fotão é o mediador da Força Electromagnética que liga os electrões ao núcleo e os átomos nas moléculas e que, além disso, é responsável por todo o espectro electromagnético, desde os raios gama às ondas hertzianas de rádio, passando pela luz, raios X, radiação ultra-violeta, e infra-vermelha.
As massas destas partículas são extremamente maiores que as das restantes partículas, sendo da seguinte ordem de valores:
W+ = 140.000 x 10‾34 g com carga zero e 10‾25 segundos de vida.
W‾ = tem a mesma massa inerte e a mesma carga e instabilidade.
Zº = 162.000 x 10‾28 g. e igual carga e instabilidade.
A questão que se coloca é como é que estas partículas com uma massa inerte relativamente elevada, quando comparada com a massa quase zero do fotão, podem ser unidas na mesma teoria electrofraca e produzir tanto a radioactividade como o espectro electromagnético?
A explicação é dada pela sua instabilidade ou curta vida. Decaem rapidamente para dar outras partículas.

Os bosões são 14 ao todo – até ver… (os 8 gluões, o fotão, os três W, os eventuais gravitão e o bosão de Higgs ainda por descobrir).

Se do gravitão não se encontrou o mais pequeno sinal, outro tanto não pode dizer-se do, há tanto tempo anunciado e esperado, Bosão de Higgs. Vejamos algo mais sobre este “sujeito”:
Há cerca de 40 anos o físico britânico Peter Higgs formulou uma teoria que defende que todo o espaço está ocupado por um campo. E que é através da interacção com ele que as partículas constituintes da matéria adquirem a sua massa. As partículas que interagem intensamente com este campo são pesadas (como vimos acima) e as que interagem pouco são leves. O campo de Higgs deverá ter pelo menos uma nova partícula associada: o “bosão de Higgs”(segundo a Teoria Supersimétrica, podem existir vários bosões de Higgs dos quais o mais ligeiro terá uma massa de 100 GeV).
Em termos teóricos, o bosão de Higgs não é bem uma partícula independente, mas apenas a manifestação da excitação do campo de Higgs que será a “barreira fantasma” que nos impede de compreender a verdadeira natureza da matéria. Será um campo de massa no qual todo o Universo está mergulhado e quando recebe energia, uma parte do campo transforma-se em partículas mediadoras de massa, nomeadamente materializa-se no bosão de Higgs.

A esperança de encontrar o bosão de Higgs está agora no novo LCH, grande acelerador de colisões do CERN, que produz colisões entre protões e anti-protões com energias que vão até aos 14.000 GeV. No dia 10 de Setembro foram enviados 2 feixes de protões, em sentido oposto, cada feixe com uma espessura inferior à de um cabelo. Espera-se não só identificar o bosão de Higgs como muitas outras partículas supersimétricas que desvendem todos os segredos da matéria. O bosão de Higgs ao decompor-se rapidamente fornece a massa necessária e suficiente para justificar a existência de matéria por via de uma multitude de partículas simétricas dos quarqs e leptões, agrupados sob o nome de fermiões , e das partículas mediadoras de forças, os bosões. Cada bosão terá um “sócio” na família dos fermiões e reciprocamente cada fermião tem um parceiro na família dos bosões.
Um dos bosões pode ser o gravitão, a partícula desconhecida que seria a mediadora da força da gravidade que não é descrita no Modelo Padrão, mas que poderia dar origem a um novo Modelo Padrão Relativista que uniria todas as forças da matéria num único Modelo conceptual (o sonho de Einstein).

É tudo extremamente complicado e, por isso, na altura, o ministro britânico da ciência ofereceu um prémio avultado ao físico que lhe explicasse de uma maneira fácil, o que é um Bosão de Higgs numa única folha de papel.
O vencedor foi o cientista David Miller que apresentou a sua explicação sob a forma de cinco desenhos. No primeiro há uma sala cheia de espectadores que corresponde ao espaço vazio ocupado pelo campo de Higgs. A dada altura entra a senhora Tatcher e à sua passagem forma-se um aglomerado de admiradores que a cumprimentam e criam uma resistência, tal como uma partícula que adquire massa ao deslocar-se no campo de Higgs. Mas também pode suceder que, em vez da personalidade, seja apenas um rumor imaterial que passa de boca em boca pela sala e que cria zonas de excitação semelhantes às da passagem da personalidade, com o conjunto de pessoas sentadas que se agitam e voltam-se para ouvir e transmitir o rumor a outro grupo que vai passando até toda a sala estar inteirada do mesmo.

Há pois dois tipos de eventos físicos susceptíveis de adquirirem massa e tornarem-se matéria e, naturalmente, anti-matéria.
Só que não tem havido uma explicação plausível para a quase inexistência de anti-matéria quando os modelos da origem do Universo admitem que se tenha formado inicialmente tanta matéria como anti-matéria.
A experiência feita em tempos no acelerador linear Slac de Stanford nos EUA teria revelado a razão porque quase não existe anti-matéria no estado natural e que residiria na taxa de desintegração dos instáveis mesões B e anti-B não ser a mesma em ambos. Aí os anti-B desaparecem menos que os B.
Porquê? Não se sabe ainda, nem qual o efeito real na matéria, nomeadamente na ligação entre protões e neutrões que é da responsabilidade dos piões. É a isso que o “Big CERN Bang” vai procurar dar resposta.
Mas vamos ter de esperar muito tempo pela resposta: as experiências que já se iniciaram como vimos atrás, geram dados que dão para fazer, por ano, uma pilha de CDs de 20 kms de altura!

BIBLIOGRAFIA:
- Pesquisas no GOOGLE.
- Artigo de Virgílio Azevedo no EXPRESSO de 6 de Setembro.

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terça-feira, setembro 9

A “dança” cósmica de galáxias distantes

Uma equipa internacional de astrónomos ao estudar várias dezenas de galáxias distantes, descobriu que a proporção de “matéria negra” e de estrelas nas galáxias, é a mesma que era há 6 mil milhões de anos. Caso esta descoberta seja confirmada, parece existir uma ligação mais forte do que se suspeitava entre a “matéria negra” e a matéria normal. A equipa descobriu também que 40% dessas galáxias não estão em "equilíbrio", isto é, os seus movimentos internos são muito irregulares, o que pode ser resultante de colisões e fusões entre elas, importantes na sua formação e evolução.


Uma imagem recém-divulgada por uma equipa do Observatório Gemini Norte, localizado em Mauna Kea, no Havaí, mostra em detalhes um objecto conhecido pelo código NGC 520. Localizado a uns 100 milhões de anos-luz daqui, esse astro na constelação de Peixes é o resultado de uma colisão de duas galáxias, que antes do encontro fatal possivelmente eram muito similares à Via Láctea.

Estes resultados lançam uma nova luz sobre como as galáxias se formaram e evoluíram desde a altura em que o Universo tinha apenas metade da sua idade actual e sobre a importância que a “matéria negra” tem sobre elas.
A “matéria negra”, que compõe (julga-se) cerca de 25% do Universo, é matéria não-bariónica, isto é, não constituída por átomos, e a sua designação é apenas uma expressão que utilizamos para descrever algo que não vemos e não compreendemos.
Ao observarmos a rotação das galáxias sabemos que a “matéria negra” tem de estar presente, senão estas estruturas gigantescas seriam “dissolvidas".

Nas galáxias mais próximas, e na Via Láctea, os astrónomos descobriram que existe uma relação entre a quantidade de “matéria negra” e as estrelas e que, de um modo simplista, podemos traduzir assim:

- por cada quilograma de material de uma estrela, existe aproximadamente 30 quilogramas de matéria negra. O que, como vimos acima, é a mesma proporção que existiria há 6 mil milhões de anos.

Mas será que esta relação entre estes dois tipos de matéria era igual no passado anterior a esses 6.000 milhões de anos?

(adaptado do ASTRONOVAS – OAL)

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sábado, setembro 6

Os assobios e os bloqueios

“No dia 10de Junho, Sócrates recebeu uma vaia. Banal, quase todos os primeiros-ministros acabam vaiados. O que é notável, no caso deste primeiro-ministro, é a velocidade com que passou de bestial a… digamos, péssimo.

Coisa diferente é saber se há verdadeiros motivos para assobiar o primeiro-ministro. Cada um terá os seus – e todos juntos são muitos - , mas convenhamos que se formos totalmente honestos, a culpa da crise que se avizinha não é dele, a culpa da desigualdade que temos não é dele e a culpa do nosso atraso também não é dele. Ainda que lhe associemos uma pequena parte da culpa nisto tudo (e a sua arrogância não foi boa conselheira), manda a verdade dizer que Portugal cresceu economicamente, que a pobreza é menor (ainda que a desigualdade possa ser maior) e que, no geral, não estamos à beira da bancarrota, como já estivemos, por vezes, nos últimos 30 anos, além de várias vezes na nossa História.

As gerações actuais não sabem o que é uma verdadeira crise. Hoje, já têm à volta de 80 anos aqueles que passaram conscientemente pela II Guerra Mundial. Os que sabiam – mesmo em Portugal – o que eram senhas de racionamento, o que era pobreza extrema. Essa geração, que são os pais e os avós das gerações agora activas, construíram como puderam, aqui e na Europa destruída pela guerra (onde foi decisivo o apoio dos EUA), uma sociedade de abundância, quase sem pobreza, aberta aos imigrantes. Passaram sacrifícios em nome de todos nós, eram de famílias que morreram na guerra, em campos de concentração, que passaram fome, que andaram fugidos, que viveram em crise, mas que no meio da adversidade tinham ainda assim esperança no futuro e acreditavam que os filhos viveriam melhor do que os pais.

Hoje, quase ninguém aceita quaisquer sacrifícios, qualquer diminuição do bem-estar, ainda que seja em nome dos seus descendentes. Hoje, a receita é querer tudo, e querê-lo já! A ideia de uma recompensa futura, que é fundadora da nossa civilização judaico-cristã, esfumou-se nas brumas.

Ao mesmo tempo, o Estado social que os nossos antepassados construíram esboroa-se hoje na falta de natalidade, no prolongamento dos anos de vida, nas técnicas de saúde cada vez mais caras. Mas nada fazemos senão exigir mais e mais do Estado. E, se acaso alguém tenta reformar este estado de coisas, acaba assobiado ou caluniado num 10 de Junho qualquer.

É uma situação difícil, uma situação de crise. Mas pior do que a crise económica e do que a crise de representação da sociedade, é a crise de valores em que mergulhámos.

Sem lideranças firmes e convictas que contrariem este imediatismo sem sentido, o destino dos líderes políticos é serem assobiados e maltratados. E o destino dos Governos é ceder àqueles que mais gritam, que mais prejudicam o país ou que mais violência ameaçam.

Infelizmente, não é por esta recusa de liderança, por este bloqueio no apontar de caminhos que os líderes políticos são assobiados. Quase sempre o são pelos piores motivos: por não destruírem mais ainda o legado que recebemos.”

(Editorial do jornal EXPRESSO, data desconhecida.)

quinta-feira, setembro 4

O caso Paulo Pedroso

O Ministério Público parece que vai recorrer da decisão que condenou o Estado português pelo “erro grosseiro” da prisão preventiva de Paulo Pedroso, o qual terá direito a uma indemnização de 130 mil euros por oposição aos 600 mil pedidos. O juiz apenas quantificou os danos sofridos pela ausência de ordenados de Pedroso durante o tempo em que esteve preso (de 21 de Maio a 8 de Outubro de 2003). Bons ordenados …

Os ex-bastonários dos Advogados, José Miguel Judice e Rogério Alves louvaram a decisão do tribunal, na medida em que (e cito Judice): “é uma sentença importante porque abre portas para outras pessoas que foram acusadas injustamente”. Veremos quando se julgar o pedido de indemnização do “Zé dos Anzóis”…

Como estamos lembrados, foi o primeiro juiz do processo Casa Pia, Rui Teixeira, que ordenou a 21 de Maio de 2003 a prisão preventiva de Paulo Pedroso. A decisão agora tomada não tem qualquer consequência naquele processo, já que o mesmo acórdão não avaliou a veracidade das acusações contra o ex-número dois do PS, mas sim o despacho do juiz Rui Teixeira e o acórdão de 8 de Setembro de 2003 do Tribunal da Relação de Lisboa que decidiu a libertação do cidadão em causa, contrariando uma decisão anterior do mesmo tribunal que em 17 de Julho de 2003 decidira manter Paulo Pedroso em prisão preventiva.

terça-feira, setembro 2


Mitsutani Kunishiro, Nu feminino (1930)

Desde que o meu corpo
foi esquecido por aquele
que prometeu vir,
não faço senão pensar
se esse corpo existe mesmo.

Ono No Komachi (834?-?)

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